segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Entrevista de Geraldo Junior para a Cariri Revista

Geraldo eletrônico
Geraldo Junior fala da saudade de brincar o reisado e da sua relação com o forró eletrônico
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Geraldo - Clarice Lissovsky
Foto: Clarice Lissovsky

Geraldo Junior fez música pela primeira vez ainda na escola, onde pôde tentar algum som com bombo, surdo, trompete, prato, lira e outros instrumentos de fanfarra. Nesses mesmos muros ele conheceu Dudé Casado, seu parceiro na primeira aventura musical: uma banda cover de bandas de rock como Beatles e Ramones. Para quem cresceu escutando bolero na vitrola do pai e Alceu Valença com os amigos, o rock era “preconceituoso demais” para seu ouvido fã de Elomar, tropicalismo e manguebeat. Apesar de ser natural dos Franciscanos, nascido e criado, foi nos terreiros do Mestre Aldenir na vila Lobo, no Crato, e no João Cabral, em Juazeiro, onde ele aprendeu a brincar o reisado, manifestação que permeia seus trabalhos até hoje. Durante os anos na banda Dr. Raiz, onde reencontrou-se com Dudé, Geraldo era um dos integrantes que insistia para o grupo ficar em São Paulo quando viajavam para fazer shows. Quando voltava (a contragosto), diminuía o ritmo, acalmava os ânimos e depois percebia que precisava de mais. Hoje ele fica entre Rio de Janeiro e São Paulo – mas prefere a terra da garoa porque ela é “mais dinâmica”, enquanto “o Rio é mais cômodo”. Há um ano e meio, fixou morada em São Paulo, mas a demanda de shows pela capital carioca há meses o impede de voltar para casa. De lá, ele nos cedeu entrevista por telefone e contou sobre o novo disco, Forró eletrônico, toadas digitais, e as noites de festa da Terreirada Cearense, um projeto que hoje é tocado por ele e pelo parceiro Beto Lemos.



Geraldo Luan Citele
Foto: Luan Citele

Como surgiu a Terreirada Cearense?
Com a Beth Fernandes, produtora do Cariri e que mora no Rio. A gente fez a Terreirada Cearense como uma festa onde apresentávamos meu trabalho e recebíamos os amigos. É um evento que existe até hoje, mas que passou quatro anos acontecendo semanalmente, geralmente ocupando espaços de grupos de teatro, onde tínhamos essa liberdade maior para atuar com música, poesia e receber outros grupos de fora, não só os cearenses, claro. A Terreirada surgiu como um projeto paralelo dentro da minha banda, onde tocávamos minhas músicas e outras, com um repertório sempre diversificado. Rolava Xangai, tocava Elomar, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, muito “forró de raiz" (usamos esse termo pra diferenciar do desgastado rótulo de forró pé-de-serra), música de folguedo, essas coisas de bandas de pífano, músicas tradicionais daí. Mas, então, no quinto ano houve esse boomimobiliário de contrato e decidimos ficar com a festa mensal, porque alugar espaços estava caríssimo e eu agora estava mais em Sampa. O projeto surgiu da ideia dessa alma cearense de brincante, dessa música de terreiro, da música no lugar da celebração - não da música como show, espetáculo, era mais como um ritual. É a música como um encontro, como quando você vai em um sítio, em uma periferia, em uma praça onde tem alguém tocando, aglutinado pessoas. Essa que era a ideia do projeto, sempre foi. De declamar uma poesia, tocar um pandeiro, de tocar uma música em um violão.
Quem fazia parte da formação original da Terreirada?
Beto, que era do Carroça - a gente deixou de tocar junto por um periodo porque ele ficou sem tempo -, Flauberto Gomes, Ranier Oliveira, Francisco Gomide e Maria Gomide, que também são do Carroça e Rebeca Queiroz, uma carioca que morou um tempo no Cariri. O Beto voltou a tocar comigo porque tava aqui no Rio e com isso, a gente se reaproximou. Ele tocava violão, rabeca, viola, e percussão, Ranier tocava sanfona e piano, Flauberto e Francisco tocavam percussão, Maria tocava sanfona e cantava, Rebeca Queiroz cantava e tocava flauta. Depois disso entraram dois gaúchos na banda - quando a Maria começou a ficar sem tempo de novo, ocupada com o trabalho dela. Era um baixista e um violinista, que são irmãos, o Marcelo e o Filipe Müller. E aí outras pessoas saíram, começaram a seguir o rumo natural, porque são músicos excepcionais. E aí entraram outras pessoas: o Gabriel Pontes, Felipe Rodrigues, Joana Araújo, Cláudio Lima, que é um baterista baiano, e a terreirada começou a ter outras pessoas de outros lugares, nesses quatro anos de processo, já indo para o quinto. A festa é mensal e eu continuo apresentando meu trabalho: "Geraldo Junior e Beto Lemos, sempre que Beto pode (risos), acompanhados pela banda tal, apresentando a Terreirada Cearense". Aí tem a formação mais fixa hoje, que é o Felipe Rodrigues, que é compositor, um grande violinista, toca 7 cordas, cavaquinho e guitarra; Gabriel Pontes, que toca com vários outros artistas; Beto Lemos, que fez parte do carroça e trabalha em vários grupos de teatro - ele, inclusive, fez a direçao musical e arrajos da Ópera do Malandro do Chico Buarque; Cláudio Lima, que toca também em vários projetos. Então, essas conexões foram maravilhosas.
Por que você quis se mudar para São Paulo?
Nesses quatro anos eu pensava em voltar pra São Paulo. Eu adoro o Rio, mas eu sempre achei São Paulo mais dinâmico, no sentido profissional. Como eu saí do Cariri pra trabalhar, pra mim São Paulo era melhor. Ano trasado eu consegui fazer isso, aí hoje eu trabalho com uma banda daqui, uma banda de São Paulo e outra no Cariri, que é com quem eu ando pelo Ceará, pelo Nordeste.

Terreirada Cearense - Giberto Ferreira
Terreirada Cearense se apresenta com Chico César e Marco Suzano no show em Homenagem a Jackson do Pandeiro, no CCBB Brasília / Foto: Gilberto Ferreira
Você notou alguma interferência dessas novas referências dentro de seu trabalho? A vivência com outros artistas lhe causou alguma mudança?
Mudança, não. Mas eu tenho pra mim que as possibilidades estão cada vez mais amplas. Além de escutar a música do lugar, a gente vive aquele lugar, aquele ambiente, a sonoridade da metrópole. Por mais que hajam os pontos negativos da cidade grande, como shoppings, aquelas paradas assim, a grande cidade agrega também uma diversidade e quantidade de informação muito interessante... O Cariri também está um pouco assim, mas, a gente ainda comunga de uma vida sertaneja, as pessoas ainda se relacionam, você ainda está aí em uma área mais rural, onde o céu é mais estrelado. Tem uma série de questões. Na metrópole, o som da cidade é outro. Além da música, os ruídos, a própria cultura urbana, da música popular urbana, da periferia. Tudo é muito misturado. E isso mexe com a vida cultural, eu acho. Aqui você pode ir no samba no centro da cidade e há essa cultura do morro, da praia, e claro que tanta informação aumenta o meu imaginário. Só que uma coisa que eu não perco é a minha referência, que é a minha identidade musical.
Warakdizã é 2012, você já estava morando entre Rio e São Paulo, mas é uma obra muito carregada de referências ao Cariri. Como é possível falar tão bem daqui, estando longe?
A saudade faz você lembrar mais, sabia? O que eu mais sinto saudade é de brincar reizado, estar contribuindo com a comunidade do João Cabral, uma das comunidades onde eu brinquei no Juazeiro. Ali as pessoas encontravam um lugar para a brincadeira e eram felizes. São felizes. Sinto muita saudade dessa parada. Mas se eu tivesse ficado no Cariri, estaria refém da triste e cruel realidade dos carteis e da máfia da música de mercado, porque a minha música não é comercial – e não é que eu não queira que ela seja comercial nesse sentido, mas é que ela não é esse forró da moda, o chamado forró eletrônico.

Julia Guimarães
Foto: Julia Guimarães

Seu novo trabalho vai se chamar Forró eletrônico, toadas digitais...Ele faz uma brincadeira com esse forró comercial daí. Usam esse termo “forró eletrônico”, mas não tem nada a ver com forró nem com música eletrônica. Musicalmente, melodicamente, contextualmente, conceitualmente falando... De forró não tem mais nada mesmo. Pode até ser elétrico, porque tem uma guitarra e tal. E aí o meu trabalho faz uma brincadeira com isso e talvez até tenha uma música de forró eletrônico no disco, mas dentro de um contexto poético. Por exemplo, o funk tem uma fonte na cultura popular, de origem negra, até virar essa batida eletrônica. Ela é muito dançante, só que é muito trash - no contexto, nas letras, alimentando essa realidade de falta de educação, explorando a sexualidade, menosprezando a mulher, dando má referencia às crianças...
Você já parou para escutar forró eletrônico?
Não tem como não escutar. Alguns nordestinos quando chegam aqui, a primeira coisa que fazem é comprar um som e botar um carro. Engraçado. Na verdade, é “comprar um carro e botar um som”, mas sem querer eu falei o certo (risos). A Feira de São Cristóvão aqui, que chamam de “Feira dos Paraíba”, reproduz esse formato comercial. Eu gosto de ir lá pra comer e dançar um forró no bequinhos - que é onde rola forró pé de serra mesmo - mas a música que manda é essa música comercial. Isso é triste demais.
Você acha que esse forró é uma ameaça à cultura popular?
Uma ameaça ele sempre foi. A cada dia vai ganhando mais força e o mercado é muito cruel. O problema é que a gente não tem políticas culturais, educacionais e sociais que façam o contraponto. Tem toda aquela história da máquina, né? O que o Faustão diz que é o novo sucesso do momento, é o novo sucesso do momento. Mesmo que ninguém nunca tenha visto ou ouvido antes.


Matéria original clique no link:
http://caririrevista.com.br/index.php/entrevistas-cat/72-geraldo-eletrico 

Um comentário:

Paulo Santiago disse...

Se o blog pudesse disponibilizar os Cds Dr. Raiz e Calendário eu ficaria muito feliz.
Sou super fã :D